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Crónicas de una conquista al revés
"Fragmentos de una carioca en Madrid"

Categoría: Gitanos y Danza Gitana

25/05/2007 GMT 1

Crônica de uma viagem encantada (fragmentos)

bethaniaguerra @ 09:35

 

 

Domingo, 12 de maio de 2007. 

Saints-Maries-de-la-Mer recebeu-nos com vento. Muito vento. Parecia cena de filme ou de novela. Era tanto vento que nos empurrava para um lado e para outro. Achamos logo o hotel, estava do lado de um circo, que estavam ainda montando, talvez o vento tenha atrapalhado a montagem, e tinham parado. Deixamos o carro perto e entramos. A cidade estava vazia. Provavelmente nos dias das procissões, 24 e 25 deve haver muita gente e no verão muitos turistas, mas naquele dia estava vazia, vazia, como encantada.

Fomos passear pela cidade. É um povoado, pequeno e branco. Muitos aspectos indicavam que as Santas Marias são realmente o centro da vida do local. Um loja se chamava: “Lês bijoux de Sarah”, outra “Maria, Maria”, de roupas. Em todos os resataurantes serviam paella, prova de que a cultura espanhola ali se mistura com a local. Vi muitos cartazes de touradas ( sim, eles fazer touradas lá.) e das procissões dos dias 24 e 25. E finalmente vi a Igreja, estava fechada. É uma fortaleza por fora, nem parece igreja, tem jeito de muralha, de forte protetor. Mas não é isso também o que ela representa?...

Fiz fotos na Praça dos ciganos e das muitas e lindas flores que havia. Mas como não podíamos entrar fomos ver o mar.  E o mediterrâneo, que costuma ser um mar tranqüilo, tinha ares de atlântico naquela tarde, que ondas, que força, que vento!!! Não resisti e fui lá, saudar Sarah e Iemanjá. Que emoção! O vento junto com as águas, levaram um dos meus brincos (que era uma argola), e, bem, se ele levou um eu dei o outro. Foi minha primeira oferenda naquele lugar sagrado.

 

Segunda, 12 de maio.

Dia da visita à igreja. Eu estava muito eufórica e emocionada ao mesmo tempo. A cidade deserta do dia anterior parecia outra. Já não fazia tanto vento, havia um pouco de sol e turistas. Vi alguns velhos e velhas ciganos ( como eu sei que eram? Só faltava escrever na testa, toda uma forma de vestir, de olhar, de falar, de comportar-se) e muita alegria nas ruas.  A porta de entrada era a mesma pequenina que eu havia visto antes, mas dentro a igreja é gigantesca. Não me continha de felicidade por ter chegado até ali.Queria ver cada detalhe, absorver toda a energia que os Deuses me presenteassem. Estava muito escuro, e a luz era pouquinha. Não sabia se deveria fazer fotos ou não. Eu não podia mesmo me concentrar nas fotos, naquele momento isso não era importante.

Vi a imagem dos barcos das Santas Marias. ( e que não inclui Magdalena, como eu pensava. Pelo menos a igreja é dedicada só à Maria Jacobé, Maria Salomé e Sara, na cripta). Vi os ex-votos tão antigos quando a igreja, em uma vitrine no alto. Uma boneca representando Sara, vestida de cigana calón, com roupa vermelha, muito flamenca! Vi o altar e abaixo... a entrada da cripta. Um misto de sentimentos me invadiu. Ao mesmo tempo que queria sair correndo e entrar, queria saborear e que aquela magia não terminasse.

Então bem devagarzinho fui caminhando, desci as escadas, e vi a imagem, grande, imponente, maternal. Havia outras pessoas, umas rezando, outras observando, mas todas com muito respeito. Eu não tinha planejado o que fazer quando chegasse ali, se acenderia a vela primeiro, onde colocaria os lenços, se leria as cartas antes ou depois. Deixei que minha intuição me levasse. Ajoelhei-me aos pés de Sara e comecei a chorar.  Chorei muito e por um bom tempo, não sei dizer quanto. E agora, contando, tenho vontade de chorar novamente. O choro era bom, de alívio, de agradecimento, de alegria. Acho que se tivesse levantado e ido embora já teria cumprido minha missão ali. Mas quis fazer tudo, e aproveitar essa oportunidade.  

Fiz uma oração, e levantei-me para entregar os três lenços. Vi que ela estava coberta por camadas e camadas de mantos, véus e lenços. Então coloquei um por um os que havia trazido, em volta dela, e depois beijei seus cabelos. Também coloquei o colarzinho que  a Dinha fez, em volta de cruz cheia de cristais, que ela tem no pescoço, e uma flor ( artificial, todas as flores eram artificiais, não sei por quê) aos pés dela.

Então aos seus pés li as cartinhas, uma por uma,  pensando em como fariam se estivessem ali e fui colocando-as do lado direito da imagem, ao lado da flor. Pensei na fé de cada uma. A fé dedicada, de doação ao próximo e sacrifício da minha mãe Vera. A fé de confiança eterna e cumplicidade fraterna com o divino da Dinha. A fé de comunhão, eclética, sabia e abrangente da Di. A fé alegre, íntima, para quem o contato com a divindade é sempre uma celebração, da Lísia. A fé inteira, incondicional, poderosa, transformadora e milagrosa da Val. A fé mediúnica, de entrega e construção da Jacque. A fé renovadora e pessoal da Mari.  A fé constante, compenetrada e profunda da Mônica.

Levantei-me novamente e  acendi uma vela azul e três incensos. Estar ali era uma benção. Assombrei-me quando ao rezar, ao ler, ao conversar com a Santa, parecia ver um sorriso em seus lábios. Seu rosto negro me sorria, suas mãos de mãe amorosa pousavam sobre minha cabeça, sobre as cartas, nos abençoando, sem dúvida.



Na volta subimos no telhado, por 2 euros pode-se ter a vista belíssima da cidade com o mar como fronteira. Pensávamos passar por outras cidades, Avignon, Montpellier, mas caiu uma chuva torrencial e voltamos à Espanha. Era ela dizendo: você veio  a minha casa e já cumpriu a missão...

 

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08/05/2007 GMT 1

Sara

bethaniaguerra @ 18:44

Santa Sara na Camargue    Ela é mesmo cheia de magia, cheia de mistério. Ela me leva nos braços até sua casa, onde recebe os que até lá caminham para agradecer, louvar, sorrir e levar lindos mantos.

   Ela abre as estradas e realiza milagres. Ela traz amores, paz, saúde, dança, música, sabedoria e fé. Ela é Sara, ela é de todos os ciganos andarilhos deste mundo.

Gitana na Gruta de Ipanema

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