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Crónicas de una conquista al revés
"Fragmentos de una carioca en Madrid"

Archivo: Mayo 2007

29/05/2007 GMT 1

Noticias 2

bethaniaguerra @ 14:54

   

     Provenientes da Costa do Marfim, 26 africanos esperam neste momento uma permissão do governo espanhol para sair do mar. A patera na qual viajavam naufragou no Mediterrâneo,  entre Malta e Líbia,  e nem um nem outro país permitiu que as pessoas desembarcassem em seus portos.  Malta é o porto mais próximo da União Européia e a Libia é  país responsável pelo salvamento e pelo resgate naquelas águas."São obvios imigrantes ilegais, sem papéis", é o motivo.   

       A situação é surreal.

 Os africanos levavam já 3 dias no mar, correndo o risco de afogamento. No primeiro dia comeram maçãs, e depois nada mais.   No sábado passado pela manhã marinheiros espanhóis os resgataram, mas há três dias esperam o aviso do governo, pois sem ele não podem trazê-los à terra. Os marinheiros usaram uma rede gigantesca, empregada nas grandes pescas de atum (pois nos barcos não havia lugar para todos). Esperam  no meio da água, estes indesejados também por outros países europeus, seu platônico destino.

   É tudo muito triste. Na sexta-feira os náufragos tentaram que os marinheiros os levassem, mas estes, que estavam trabalhando e não tinham espaço suficiente para tantas pessoas, a princípio se negaram, mas pensaram que de desssem ajuda os africanos poderiam continuar a viagem em seu próprio barco, ofereceram  então maçãs, água e gasolina. Mas os imigrantes continuaram por perto. Na manhã do dia seguinte os marinheiros descubriram que a patera já havia afundado, e que os africanos não tinha dito nada talvez por um misto de motivos, medo, vergonha, pavor. Foi então quando decidiram resgatá-los.

     Este tipo de situação não é nova, no mês passado outro caso similar ocorreu e italianos prestaram ajuda a outros náufragos africanos, também da Costa do Marfim. Mas o auxílio continuará sendo somente deste tipo? O ministro do interior maltês diz que "faz muito mais do que deveria". Será mesmo? A responsabilidade não é deles? Discordo. Todos somos reponsáveis, sem exceção. Se nosso sitema de mundo, de economia, de coisas, chegou a este ponto, tudo está MUITO ERRADO.

 Não se pensará seriamente sobre isso?

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25/05/2007 GMT 1

Crônica de uma viagem encantada (fragmentos)

bethaniaguerra @ 09:35

 

 

Domingo, 12 de maio de 2007. 

Saints-Maries-de-la-Mer recebeu-nos com vento. Muito vento. Parecia cena de filme ou de novela. Era tanto vento que nos empurrava para um lado e para outro. Achamos logo o hotel, estava do lado de um circo, que estavam ainda montando, talvez o vento tenha atrapalhado a montagem, e tinham parado. Deixamos o carro perto e entramos. A cidade estava vazia. Provavelmente nos dias das procissões, 24 e 25 deve haver muita gente e no verão muitos turistas, mas naquele dia estava vazia, vazia, como encantada.

Fomos passear pela cidade. É um povoado, pequeno e branco. Muitos aspectos indicavam que as Santas Marias são realmente o centro da vida do local. Um loja se chamava: “Lês bijoux de Sarah”, outra “Maria, Maria”, de roupas. Em todos os resataurantes serviam paella, prova de que a cultura espanhola ali se mistura com a local. Vi muitos cartazes de touradas ( sim, eles fazer touradas lá.) e das procissões dos dias 24 e 25. E finalmente vi a Igreja, estava fechada. É uma fortaleza por fora, nem parece igreja, tem jeito de muralha, de forte protetor. Mas não é isso também o que ela representa?...

Fiz fotos na Praça dos ciganos e das muitas e lindas flores que havia. Mas como não podíamos entrar fomos ver o mar.  E o mediterrâneo, que costuma ser um mar tranqüilo, tinha ares de atlântico naquela tarde, que ondas, que força, que vento!!! Não resisti e fui lá, saudar Sarah e Iemanjá. Que emoção! O vento junto com as águas, levaram um dos meus brincos (que era uma argola), e, bem, se ele levou um eu dei o outro. Foi minha primeira oferenda naquele lugar sagrado.

 

Segunda, 12 de maio.

Dia da visita à igreja. Eu estava muito eufórica e emocionada ao mesmo tempo. A cidade deserta do dia anterior parecia outra. Já não fazia tanto vento, havia um pouco de sol e turistas. Vi alguns velhos e velhas ciganos ( como eu sei que eram? Só faltava escrever na testa, toda uma forma de vestir, de olhar, de falar, de comportar-se) e muita alegria nas ruas.  A porta de entrada era a mesma pequenina que eu havia visto antes, mas dentro a igreja é gigantesca. Não me continha de felicidade por ter chegado até ali.Queria ver cada detalhe, absorver toda a energia que os Deuses me presenteassem. Estava muito escuro, e a luz era pouquinha. Não sabia se deveria fazer fotos ou não. Eu não podia mesmo me concentrar nas fotos, naquele momento isso não era importante.

Vi a imagem dos barcos das Santas Marias. ( e que não inclui Magdalena, como eu pensava. Pelo menos a igreja é dedicada só à Maria Jacobé, Maria Salomé e Sara, na cripta). Vi os ex-votos tão antigos quando a igreja, em uma vitrine no alto. Uma boneca representando Sara, vestida de cigana calón, com roupa vermelha, muito flamenca! Vi o altar e abaixo... a entrada da cripta. Um misto de sentimentos me invadiu. Ao mesmo tempo que queria sair correndo e entrar, queria saborear e que aquela magia não terminasse.

Então bem devagarzinho fui caminhando, desci as escadas, e vi a imagem, grande, imponente, maternal. Havia outras pessoas, umas rezando, outras observando, mas todas com muito respeito. Eu não tinha planejado o que fazer quando chegasse ali, se acenderia a vela primeiro, onde colocaria os lenços, se leria as cartas antes ou depois. Deixei que minha intuição me levasse. Ajoelhei-me aos pés de Sara e comecei a chorar.  Chorei muito e por um bom tempo, não sei dizer quanto. E agora, contando, tenho vontade de chorar novamente. O choro era bom, de alívio, de agradecimento, de alegria. Acho que se tivesse levantado e ido embora já teria cumprido minha missão ali. Mas quis fazer tudo, e aproveitar essa oportunidade.  

Fiz uma oração, e levantei-me para entregar os três lenços. Vi que ela estava coberta por camadas e camadas de mantos, véus e lenços. Então coloquei um por um os que havia trazido, em volta dela, e depois beijei seus cabelos. Também coloquei o colarzinho que  a Dinha fez, em volta de cruz cheia de cristais, que ela tem no pescoço, e uma flor ( artificial, todas as flores eram artificiais, não sei por quê) aos pés dela.

Então aos seus pés li as cartinhas, uma por uma,  pensando em como fariam se estivessem ali e fui colocando-as do lado direito da imagem, ao lado da flor. Pensei na fé de cada uma. A fé dedicada, de doação ao próximo e sacrifício da minha mãe Vera. A fé de confiança eterna e cumplicidade fraterna com o divino da Dinha. A fé de comunhão, eclética, sabia e abrangente da Di. A fé alegre, íntima, para quem o contato com a divindade é sempre uma celebração, da Lísia. A fé inteira, incondicional, poderosa, transformadora e milagrosa da Val. A fé mediúnica, de entrega e construção da Jacque. A fé renovadora e pessoal da Mari.  A fé constante, compenetrada e profunda da Mônica.

Levantei-me novamente e  acendi uma vela azul e três incensos. Estar ali era uma benção. Assombrei-me quando ao rezar, ao ler, ao conversar com a Santa, parecia ver um sorriso em seus lábios. Seu rosto negro me sorria, suas mãos de mãe amorosa pousavam sobre minha cabeça, sobre as cartas, nos abençoando, sem dúvida.



Na volta subimos no telhado, por 2 euros pode-se ter a vista belíssima da cidade com o mar como fronteira. Pensávamos passar por outras cidades, Avignon, Montpellier, mas caiu uma chuva torrencial e voltamos à Espanha. Era ela dizendo: você veio  a minha casa e já cumpriu a missão...

 

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08/05/2007 GMT 1

Sara

bethaniaguerra @ 18:44

Santa Sara na Camargue    Ela é mesmo cheia de magia, cheia de mistério. Ela me leva nos braços até sua casa, onde recebe os que até lá caminham para agradecer, louvar, sorrir e levar lindos mantos.

   Ela abre as estradas e realiza milagres. Ela traz amores, paz, saúde, dança, música, sabedoria e fé. Ela é Sara, ela é de todos os ciganos andarilhos deste mundo.

Gitana na Gruta de Ipanema

01/05/2007 GMT 1

Noticias

bethaniaguerra @ 19:25

    Hoje estava comentando com o Juan sobre a falta de conhecimento que em verdade paira sobre nós no país continente chamado Brasil. Excetuando uns poucos escolhidos, que por terem batalhado muito conseguiram fazer uma universidade, que pensam sobre o situação social mundial (?) que tem preocupações políticas, que lêem, que têm acesso à internet, que tem grupos de amigos que discutem temas relevantes, tirando estes grupos, que são poucos realmente (e que não necessariamente possuem todas estas "qualidades”),a grande maioria do povo brasileiro não sabe o que acontece no mundo. 

    As notícias não chegam no Brasil. Infelizmente não é exagero. Não sabemos o que ocorre no Oriente Médio ( que aqui é Oriente Próximo...), não sabemos que a cada dia a história dos navios negreiros se repete uma ...

 ... e outra vez nas costas Canárias. Não sabemos o que é um cayuco, uma patera. Quem são os Latin Kings? Infelizmente não é uma banda de salsa. Mas como saber, se também não nos chegam as notícias da imigração massiva de equatorianos rumo às terras peninsulares, se não sabemos que na Colômbia as agências de viagem incluem, falsamente, em suas promoções, uma nova passagem de tentativa se te deportam no aeroporto de Madrid.

    Os cayucos, caros compatriotas, são a versão moderna do que cantou Castro Alves e dezenas de africanos morrem todos os meses tentando chegar à Europa, os Latin Kings são grupos de jovens latinos que organizam sua delinqüência desesperada numa luta identitária violenta, torta e capenga.

    Mas se não sabemos (e me incluo porque apesar de estar aqui e de “saber”, essa condição sempre será efêmera, mas minha brasilidade e  o problema de que falo são constantes), é porque não nos dizem, porque nossos telejornais não dedicam nem um terço do seu tempo às questões internacionais, e nem sequer sabemos o que acontece nos países vizinhos.

    Talvez também não saibamos porque não procuremos saber, porque nos acomodamos sendo essa minoria privilegiada e discutindo nossas intelectualidades no Amarelinho. Ou porque nos organizamos em partidos políticos utópicos e fazemos uma luta ineficaz, porque nos acostumamos a ver as crianças nas ruas e a saber que elas jamais farão parte desta elite do pensamento. Porque escrevemos nossas teses e depois as colocamos na estante. E me incluo, te incluo. É barra. Não sei qual é o caminho, mas hoje, pensando nisso, muitos atos nossos pareceram-me inércia.

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